| Crônica de
Ano Novo - "Feliz Ano-Novo. Inteirinho"
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O mais velho “Ano-Novo” de que me lembro é uma noite, lá longe, perdida no tempo, quando eu estava na casa da minha vó, em Mogi. Já era garoto crescido e por isso agüentei chegar acordado até a meia-noite para “bater no poste”. Explico: antigamente os postes eram de ferro. E ocos. Davam uma ressonância incrível a cada pedrada ou batida com algum outro metal. A vó Dita e minha tia-avó, Conceição, ficavam à janela, vigiando, enquanto eu ia para a rua e fazia minha parte na harmonia da meia-noite. Junto comigo, centenas de outras crianças ou adultos batiam em postes, enquanto as fábricas apitavam e os sinos batiam. Era emocionante fazer parte dessa orquestração de boas-vindas a um ano-novo. Depois vieram outras comemorações, passando por bailes, champanhas, abraços e beijos de parentes, amigos, namoradas. Mas um dos momentos diferentes que eu vivi, pelo menos culturalmente, foi quando passei o “oshogatsu”, no Japão, há alguns anos. E explico, de novo: “oshogatsu” é o ano-novo para os japoneses. Sua maior festa. É quando a população não dorme. Da noite de 31 de dezembro até o raiar do sol do dia 1º de janeiro, há uma peregrinação total aos grandes templos para orações aos deuses. Eu participei dessa peregrinação junto com o presidente da San-Rio (Hello Kitty). Saímos de sua casa e, com uma comitiva atrás, dirigimo-nos aos templos mais próximos. Na comitiva, outros diretores da empresa japonesa e logo atrás, suas mulheres. Como é tradição no Japão. À aproximação dos templos, povo se acotovelando, disputando lugar com milhares de barraquinhas que vendem de tudo para aquele evento. À chegada ao templo, policiais dirigindo a “onda humana”. Com gestos enérgicos, dividem a massa de fiéis em “tantos metros” que podem entrar. Seguram os segmentos seguintes um tantinho de tempo até que o primeiro grupo tenha tempo de orar, passar mãos e outras partes do corpo numa fumaça que vai protegê-los durante o ano todo e seguir em frente. Porque atrás vem gente. E quanta gente! Acho que não fica ninguém em casa nessa noite. Mas depois da parte espiritual, a material. Nas barraquinhas, comida farta e variada pra todo aquele povo. Principalmente “lámen” (macarrão) e “moti” (bolinho de arroz com shoyu). A bom preço. Mais o “saquê”. Suave e perigosa aguardente de arroz. Você bebe e não percebe sua potência alcoólica até ser tarde demais. Daí é bom ter um amigo abstêmio ao lado para ajudá-lo a voltar para casa. Eu não cheguei a me sentir ameaçado pelo saquê. Só dei umas bicadinhas para experimentar. Já conhecia a história. Depois vem um dia geralmente radiante de sol, embora frio. É inverno. Mas as ruas e, de novo, os templos tornam-se muito mais japoneses: todos se vestem com roupas típicas. Os quimonos mais ricos e deslumbrantes são exibidos por jovens ou anciãs. É o “momento Japão”, um pouco esquecido no resto do ano. A magia do “reveillon” japonês - o “oshogatsu”- tenta ser seguida ou imitada por outras comemorações monumentais que já assisti em outras partes do mundo. Desde as feéricas festas no “Time-Square”, em Nova York, passando pelo “Champs Elysées”, ao lado do Arco do Triunfo, em Paris, até as banalizadas e diárias (!) festas de ano-novo no “Pleasure Island”, na Disney de Orlando. Há o toque afro-brasileiro nas comemorações de praia, com direito a fogos de artifício... Mas onde quer que se esteja, o que torna um reveillon emocionante e inesquecível é a possibilidade de se desejar, num momento mágico, um ano de felicidades às pessoas que amamos. Não desperdice. E Feliz Ano-Novo. Inteirinho. Pra você também.
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