Crônica 19 - "Tezuka-San, meu irmão temporão (2)"



(Continuação da crônica anterior).

Mas, antes da festa, tivemos uma volta às suas origens: tive a honra de acompanhá-lo numa viagem por todos os pontos que marcaram a vida de Tezuka-San. Desde a distante cidade de Takarazuka, com seu gigantesco teatro à moda do “Radio City” de Nova York, os parques em que ele brincava em criança, a escola, e depois seus estúdios, em Tóquio, seu museu particular, sua família, sua casa...

Era um retorno, uma viagem de nostalgia que ele nunca havia feito na vida, um momento de descanso para um artista que fazia meio século não parava de trabalhar.

Durante esses dias de irmandade, muita conversa rolou. Sobre nossas vidas, sonhos, objetivos alcançados, o preço que se paga para atingir algumas metas... e o futuro: o que fazer para aproveitar o oxigênio que ainda temos no alto da montanha de realizações profissionais?

A continuação desse último tema ficou para minha viagem seguinte ao Japão.

Mas quando comecei a planejar essa nova viagem, senti que havia alguma coisa estranha. Não conseguia falar com Tezuka-San por telefone nem marcar encontro com ele. Suas secretárias, seus diretores davam as mais variadas e polidas desculpas, mas nada de informações concretas.

Quando cheguei a Tóquio para outros contatos comerciais, já havia desistido de me avistar com Tezuka-San. Mas fui surpreendido por um inesperado telefonema de um assistente seu. Tezuka-San poderia se encontrar comigo num salão do Hotel New-Otani naquela tarde durante algum tempo. Estranhei um pouco a forma, mas fiquei supersatisfeito com a possibilidade de rever o amigo. E fui ao seu encontro acompanhado de uma intérprete.

Quando cheguei percebi, instantaneamente, o porquê dos “mistérios”. Tezuka-San já estava muito mal, maltratado por um câncer, abatido, magro. Mas com poucos minutos de conversa, sua aparência que me assustou e entristeceu foi esquecida. Sua lucidez, energia, vontade estavam todas ali, intocadas. E principalmente para me passarem conselhos e orientação. Contou-me de problemas que teve com sua empresa, em certas épocas. E me falou dos cuidados que eu deveria ter no meu estúdio para não repetir seus erros.

Mostrava-se triste com a onda de histórias em quadrinhos e desenhos animados cheios de violência que varriam o mundo a partir do Japão. E sentia-se meio responsável por isso. Afinal, suas produções e estúdios foram verdadeiras escolas para milhares de desenhistas e animadores japoneses.

Fazia questão de falar das suas últimas produções, já mais poéticas e humanistas. Ao contrário das primitivas.

E finalmente insistia que a vida não é só trabalho, como tinha sido com ele desde o início. Sugeria que eu não me escravizasse, como ele, que ficava dias e noites terminando um filme ou um livro sem se lembrar de voltar para casa ou para a família.

Arrependia-se. Mas o tempo já tinha passado. Via em mim uma eventual continuação corrigida das coisas que ele pretendia fazer. Inclusive uma co-produção onde seus personagens se misturariam com a Turma da Mônica. Assim que ele melhorasse um pouco, trataríamos desse projeto.

Falou... falou... até que senti que ele precisava descansar. Seu acompanhante, diretor da Tezuka Productions, conduziu-o de volta para o hospital de onde ele tinha fugido só para nossa conversa.

A tecnologia e a medicina não conseguiram reverter o processo. E por mais que o “Kimba” Tezuka lutasse, a moléstia venceu.

Recebi a notícia logo que cheguei ao Brasil.

E ainda hoje, quando me lembro do meu “irmão” Tezuka-San, sinto duas emoções: uma de tristeza por ele não estar mais aqui (valendo um nó na garganta) e outra de agradecimento pelo privilégio de tê-lo conhecido e de ter recebido dele a energia dos seus conhecimentos e da sua amizade.



29.12.1996


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