Crônica 98 - "A Lenda do Lago Dourado"

Ninguém sabia explicar por que as águas daquele lago eram douradas.

Ou melhor, explicações havia muitas. Mas cada uma delas contrariava a anterior.

O gozado é que bem ao lado do lago de águas amareladas havia outros lagos com cor de lago, mesmo. Tipo azuizinhos, refletindo os matizes do céu ou levemente barrosos depois de uma chuva forte.

Isso é coisa das carpas que revolvem o lodo do fundo!”, dizia um morador de uma casinha próxima. “ Conversa. É óxido de ferro que sai das vertentes junto com a água!”, dizia outro que capinava nas imediações. “ Este lago é encantado. Fica perto de onde havia uma casinha onde morava uma benzedeira. E nessas águas ela escondeu dobrões de ouro do tempo colonial. O ouro faz a água rebrilhar de amarelo!”, sacava outro agricultor das redondezas.

E com efeito, por conta dessa lenda, aquela gente tentou esvaziar mais de uma vez o lago. Diziam que era para acabar com as traíras que, como boas carnívoras, estavam acabando com outros peixinhos. E estes faziam falta, como proteínas, à mesa dessa gente. Mas o proprietário da terra, como bom cidadão urbano, virava as costas para essas explicações ou lendas e não autorizava o esvaziamento.

E o lago de águas douradas continuou como sempre, misterioso e amarelado, principalmente quando batia aquele sol de fim de tarde... lindo.


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Mas corria, também, na boca do povo, a segunda parte da lenda: todos deviam ficar atentos para quando três aves totalmente brancas, com bicos de ouro, pousassem nas águas douradas. E essas aves indicariam o local exato onde estariam as moedas. A condição para o resgate do ouro era a de que o lago não seria danificado, poluído, maltratado. Mas quem já vira ou ouvira falar de aves brancas como a neve, com bicos de ouro?

Bem. Custou a aparecer, mas... um dia surgiram nadando na lagoa três marrequinhas totalmente brancas, com seus tradicionais e óbvios bicos amarelos. Não eram exatamente bicos de ouro, mas as lendas são cheias de metáforas e palavras de sentido dúbio.


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Foi um alvoroço. Todos os lavradores que trabalhavam por ali souberam da novidade, abandonaram seus afazeres e se acomodaram às margens do lago, à espera de que as marrequinhas dessem um sinal inequívoco de que os dobrões estavam mais um pouquinho pra lá ou mais pra cá, sob as águas. Mas nunca que as aves paravam de nadar.


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Talvez assustadas por verem tanta gente de pé à beira do lago, prontinhos para mergulharem.

Nadam que nadam e nada.

A turma começou a ficar impaciente. E um e depois outro foi caindo na água, mergulhando, tateando no lodo do fundo para ser o primeiro a pôr as mãos no tesouro. Outros já traziam latões para iniciarem um esvaziamento não consentido. E em pouco havia mais gente dentro d’água do que fora. Uma zoeira.


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As marrequinhas mais que depressa escaparam daquela confusão e ficaram lá longe, espiando, enquanto o povo “destruía” o lago dourado.

E em pouco era um lodaçal só, emporcalhando cada um dos caçadores de tesouro.

E nada de dobrões, moedas...


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Então, aquelas estátuas vivas de barro foram saindo, voltando para suas casas, frustradas, resmungando contra lendas e contos de fadas.

As marrequinhas custaram a voltar. Só o fizeram quando já anoitecia e não sobrara ninguém por perto. E aí, pequenos olhos de água começavam a umedecer, de novo, o barro deixado pelos invasores. E justamente nessas vertentes, as marrequinhas foram buscar água fresca, limpa, para matar a sede, enquanto se mantinham firmes, bem plantadinhas, sobre algumas pequenas barras de ouro que misteriosamente tinham escapado da busca e se mantinham escondidas no barro.


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08.01.1998

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