Crônica 10 - "Pelé, Pelezinho ou Pelezão"

A idéia já vinha se fortalecendo a cada encontro meu com o Pelé. Que ocorriam, geralmente em aviões ou aeroportos.

Na primeira vez na volta de uma viagem da Itália, falamos da criação de um personagem baseado na sua figura.

Depois continuamos discutindo, aqui e ali, como deveria ser esse personagem: Um super jogador? Um jovenzinho bom de bola? Uma criança que ainda estivesse se preparando para ser o campeão do mundo? Eram dúvidas minhas. Mas não dele.

O Pelé pensava num personagem à sua semelhança naquele momento, quando ele ainda jogava e estava no Cosmos de Nova York.

Eu insistia que um personagem criança atingiria uma faixa de público importante para a perpetuação de sua marca-imagem. Com todas as possibilidades de fabulações e mensagens bem humoradas e positivas que os quadrinhos infantis permitem.

O projeto exigia um "lobby" corpo a corpo. E me despachei para Nova York onde, nos escritórios do Pelé, no Rockfeller Center, continuei minha campanha pelo Pelezinho.

Mas o Pele não queria aceitar.

Insistia no Pelezão.

Então resolvi apelar. Lá mesmo, na sala do Pelé, rabisquei diversos “Pelezinhos” nas mais diversas poses. Ficaram muito bonitinhos. Daí sugeri ao Pelé que, como não estávamos nos entendendo, ele tirasse a dúvida mostrando esses desenhos para seus filhos. Kelly já era crescidinha e o Edinho se mostrava um garotinho esperto, atento.

Eu os tinha conhecido pouco antes ao visitar o apartamento onde Pelé morava ainda com Rose.

E sentia que se dependesse das crianças, o Pelezinho ganharia a parada.

E não deu outra.

No dia seguinte, quando cheguei ao escritório do Pelé, ele me esperava meio emburrado e confessou que a criançada tinha votado em peso no personagem que eu desenhara na véspera.


Mauricio, Victor Civita, Pelé e Angelo Rossi na Editora Abril.

Daí para diante houve uma deliciosa temporada de novas criações e estudos que iam desde longos papos com o Pelé contando coisas da sua infância em Bauru e me ajudando na elaboração dos personagens secundários (todos seus antigos amiguinhos) até memoráveis cartinhas que ele me mandava dos mais diversos pontos do mundo, com lembranças de suas molecagens e sugestões de historinhas. E sem suas reminiscências, como conheceríamos seu amigo de todos os momentos Cana Braba? Ou sua primeira namoradinha, Neuzinha Sakai? Ou o frangueiro Frangão? A Samira, dos quibes? A Bonga namoradeira? Ou seu fiel cãozinho Rex, que ajudava até a cavar o buraco para as traves?

São as lembranças de uma infância mágica, carregada de amor da avó, dos pais e tios, todos fãs do pequeno Edson, antes, mesmo, que ele virasse o Pelé do mundo.

Tudo isso ajudou na elaboração das histórias em quadrinhos do Pelezinho que durante muitos anos foram publicadas em tiras de jornais e páginas de revistas.

Histórias que serviram para entreter e divertir milhares de leitores durante anos e que cumpriram a proposta de homenagear o maior jogador de futebol de todos os tempos. Sem contar com a infinidade de novos amigos-crianças que o Pelezinho granjeou para o Pelezão.


Capa da Revista nº 1

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