| Crônica 20
- "O
Presidente oculto"
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Foi na minha primeira viagem ao Japão. Levava as historinhas do "Horácio" para publicar numa nova revista chamada "Itigô-shimbum" que quer dizer, em japonês, "Jornal do Morango". Nesse tempo a agência americana United Features negociava meus desenhos e conseguiu interessar a empresa japonesa Sanrio pelo meu dinossaurinho. Na revista já saia o Snoopy e Hello Kitty, este último, criação deles. A revista estava nos primeiros números e a Sanrio dava os primeiros passos para se transformar numa gigantesca rede mundial de simpáticas lojinhas. Quando eu cheguei ao Japão ainda estavam inaugurando a segunda loja no bairro chique de Ginza. Ao descer do avião, em Tokyo, um grupo de executivos japoneses me esperava. O vice-presidente Ogisu-San conduziu as apresentações muito solícito, simpático, e me informou que já no dia seguinte (domingo) eu visitaria a nova loja de Ginza para conhecer a filosofia de trabalho da Sanrio, seus produtos e outros diretores. Entre os anfitriões havia um senhor moreno, de óculos, sorridente, calado que durante todo o percurso do aeroporto para o hotel não abriu a boca. Fiquei sem saber quem era. Deixaram-me no hotel para uma noite bem dormida e já no dia seguinte me apanhavam para ver a loja de Ginza. Gente que não acabava mais querendo entrar. E nos balcões, sorveterias, nas estantes de brinquedos, os próprios diretores atendendo. O senhor calado era o sorveteiro. Que só no fim da tarde teve um tempinho para interromper um pouco sua atividade e me solicitar, através do vice-presidente, um desenho autografado. Deu-me um cartão bonito, de bordas douradas, canetas e ficou observando atentamente enquanto eu caprichava numa cena sofisticada com toda a turma da Mônica. Recebeu o desenho pronto e voltou aos sorvetes. Enquanto eu passava por outros departamentos, curioso e fascinado com aquele movimento. Na manhã seguinte eu era o convidado especial para a reunião semanal da diretoria. Grande mesa redonda com diretores sentados à frente de seus auxiliares. Só o vice-presidente e o senhor calado não tinham niguém por trás. E ali, finalmente, ele me foi formalmente apresentado: era o presidente da companhia, senhor Shintaro Tsuji, ainda hoje na ativa. Ele tinha me observado no aeroporto, testado minha arte, percebeu meu entusiasmo pelo que via e só então se apresentou. Porque a partir dali teria que ter uma relação direta comigo. De presidente da Sanrio para presidente da minha Mauricio de Sousa Produções. Valeu! O Horácio agradou à criançada que lia o Jornal do Morango e eu ainda permaneci mais dois meses ajudando na implantação do negócio bonito que é a Sanrio. Precisei, inclusive convocar minha melhor arte-finalista - Alice Takeda - para me ajudar lá no Japão. Daí voltei com um monte de histórias para contar. Como aquela do vaso de seis milhões de dólares que eu ganhei mas não aceitei. Querem saber como foi? Na próxima crônica.
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