| Crônica 209 -
"O tempo e a confiança"
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Uma antiga história - dessas que todas as civilizações dizem que são suas - fala de um navegante que, desejoso de conhecer outras terras, outros mares, gastou tudo o que tinha para preparar um barco, provisões e enfrentar o desconhecido. Mas antes, ao se despedir da mulher, fez com que ela jurasse que o esperaria durante todo o tempo das suas andanças. Por mais que demorasse. E para ter certeza de que não seria esquecido nem um dia, sugeriu que ela pusesse um rico tapete bordado, a cada manhã, pendurado à janela do quarto do casal. Quem passasse saberia da combinação, da espera fiel e da esperança pela volta. A mulher, que o amava, entre choro e emoções, concordou de coração. E o navegante embarcou e sumiu por detrás de umas ilhas que cercavam a baía da cidade. E o tempo passou, passou e passou... Com o tapete sendo estendido toda manhã, na moldura da janela. E a mulher apaixonada aguardando, saudosa... e esperançosa. Mas como o tempo demorava a passar pelo caminho da sua solidão, resolveu ocupar-se com estudos e trabalho. Iniciou um curso, depois uma faculdade, formou-se, botou banca de advogada, enricou, ficou famosa, trocou o tapete original, meio puído, por outros, bordados com mais requinte... e continuou à espera... sem notícias do marido mas ainda esperançosa. Até que todos os amigos, amigas, parentes, de tanto falarem, estranharem o sumiço do esposo, conseguiram convencê-la de que alguma coisa deveria ter acontecido com ele. Talvez a morte, já que um homem apaixonado sempre conseguiria, de um modo ou de outro, mandar notícias. E a mulher, já madura mas ainda bela, resolveu que era chegado o tempo do fim da espera. E depois de muito relutar, numa certa manhã decidiu que o tapete não tinha mais por que ser estendido. A vida poderia continuar, mesmo sem novas esperanças.... pelo menos com relação ao marido sumido. Mas no que se passaram algumas poucas horas do dia sem tapete, eis que o marido surge no vão da porta. Envelhecido, barbas compridas, grisalho, aos gritos, protestos... E toda a aldeia acorreu para ver e se admirar com a história fantástica do navegante que, desconfiado de que a mulher o pudesse esquecer, esperou do outro lado das ilhas, anos e anos, para ter certeza de que seu pedido - o do tapete estendido - seria cumprido. E só então sair para sua pretendida viagem. Naturalmente, depois dessa, ele saiu, mesmo, para uma grande viagem. Sozinho... como estivera durante tantos anos. 22.09.2000 |
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