Turma da Mônica - Mauricio de Sousa

Crônica 209 - "O tempo e a confiança"

Uma antiga história - dessas que todas as civilizações dizem que são suas - fala de um navegante que, desejoso de conhecer outras terras, outros mares, gastou tudo o que tinha para preparar um barco, provisões e enfrentar o desconhecido.

Mas antes, ao se despedir da mulher, fez com que ela jurasse que o esperaria durante todo o tempo das suas andanças. Por mais que demorasse.

E para ter certeza de que não seria esquecido nem um dia, sugeriu que ela pusesse um rico tapete bordado, a cada manhã, pendurado à janela do quarto do casal.

Quem passasse saberia da combinação, da espera fiel e da esperança pela volta.

A mulher, que o amava, entre choro e emoções, concordou de coração.

E o navegante embarcou e sumiu por detrás de umas ilhas que cercavam a baía da cidade.

E o tempo passou, passou e passou...

Com o tapete sendo estendido toda manhã, na moldura da janela.

E a mulher apaixonada aguardando, saudosa... e esperançosa.

Mas como o tempo demorava a passar pelo caminho da sua solidão, resolveu ocupar-se com estudos e trabalho. Iniciou um curso, depois uma faculdade, formou-se, botou banca de advogada, enricou, ficou famosa, trocou o tapete original, meio puído, por outros, bordados com mais requinte... e continuou à espera... sem notícias do marido mas ainda esperançosa.

Até que todos os amigos, amigas, parentes, de tanto falarem, estranharem o sumiço do esposo, conseguiram convencê-la de que alguma coisa deveria ter acontecido com ele. Talvez a morte, já que um homem apaixonado sempre conseguiria, de um modo ou de outro, mandar notícias.

E a mulher, já madura mas ainda bela, resolveu que era chegado o tempo do fim da espera.

E depois de muito relutar, numa certa manhã decidiu que o tapete não tinha mais por que ser estendido.

A vida poderia continuar, mesmo sem novas esperanças.... pelo menos com relação ao marido sumido.

Mas no que se passaram algumas poucas horas do dia sem tapete, eis que o marido surge no vão da porta. Envelhecido, barbas compridas, grisalho, aos gritos, protestos...

E toda a aldeia acorreu para ver e se admirar com a história fantástica do navegante que, desconfiado de que a mulher o pudesse esquecer, esperou do outro lado das ilhas, anos e anos, para ter certeza de que seu pedido - o do tapete estendido - seria cumprido. E só então sair para sua pretendida viagem.

Naturalmente, depois dessa, ele saiu, mesmo, para uma grande viagem.

Sozinho... como estivera durante tantos anos.



22.09.2000


logo Copyright ©1996 Mauricio de Sousa Produções
Todos os direitos reservados.
Restrições Legais e Termos de Uso do Site
E-mail

Webmaster: NMD internet & multimidia