Crônica 21 - "O vaso de seis milhões ... que eu não aceitei"


Como escrevi na crônica anterior, fui ao Japão para colaborar com a empresa Sanrio na implantação de seu licenciamento mundial. Levei o Horácio para ser publicado na revista deles, criei produtos, convoquei minha arte-finalista maior - a Alice Takeda - para ajudar lá em Tokyo. E acompanhamos o crescimento incrível da rede Sanrio de duas lojas para milhares no mundo em poucos anos.

E chegou um dia em que o presidente da organização me convocou para uma reunião na sua “sala secreta”.

Fui lá, acompanhado de minha intérprete - Sra. Senda.

Sala grande, mobiliada com elegância ocidental, paredes de madeira trabalhada. O presidente Tsuji, sempre vestido formalmente, me recebeu efusivamente e agradeceu por toda colaboração e entusiasmo que eu tinha tido para com sua empresa.

Em seguida, apertou um botão e as paredes forradas de madeira começaram a se movimentar rolando para os lados.

E aos poucos, enquanto se abriam, deixavam ver estantes cheias de vasos lindos e ricamente adornados. “Fios” de luz verde à frente dos vasos mostravam o tipo de segurança que os mantinha protegidos: células fotoelétricas.

Um segundo botão acionado pelo presidente Tsuji desligou esses “alarmes” e permitiu que ele fosse até uma das estantes e apanhasse um vaso nas mãos.

Trouxe-o até mim e disse que era um presente pelos meus bons serviços prestados à sua empresa.

Quando segurei o vaso que ele me passava, minha intérprete terminou de traduzir a última frase dele: Era uma valiosíssima peça chinesa da dinastia Ming, que valeria uns seis milhões de dólares.

Quase deixei cair o vaso.

Pela minha cabeça passaram mil coisas em segundos:

O que eu ia fazer com aquela preciosidade? Levar para o Brasil? E guardar onde?

Teria que ficar escondido em algum lugar blindado.

Ou deixar à vista, ao alcance de uma vassoura ou espanador distraído?

Não poderia vender. Era um presente. Não poderia dar pra ninguém.

Seria desaforo. Fazer o que?

Recusar, naquele momento.

E foi o que eu fiz. Agradeci com sinceridade e expliquei que eu ainda não tinha um local digno, no Brasil, para guardar um tesouro daqueles. Quando eu tivesse um grande Parque da Mônica com uma área japonesa, planejaria um local para o vaso ficar exposto. Mas até lá, solicitei que o vaso ficasse na segurança daquela fortaleza.

Ele aceitou a recusa de momento, guardou o vaso e fechou as portas-paredes, de novo. Minha intérprete elogiou minha atitude dizendo que eu tinha feito a coisa certa.

E ficamos por aí.

Até hoje eu também acho que evitei grandes problemas com a recusa.

Ou teria me transformado numa babá de um vaso de seis milhões. Já pensou?

Na próxima crônica: De onde vieram tantos vasos chineses valiosíssimos para a sala secreta do presidente?


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