Crônica 22 - "A herança do ping-pong"


Anos 70. Tempos de tensão.

Estados Unidos e União Soviética se exercitam numa guerra fria prontinha para esquentar.

Para piorar e preocupar mais, os soviéticos e seus vizinhos chineses também não estão se entendendo. Escaramuças começam a pipocar através da extensa fronteira que separa os dois maiores países comunistas.

Enquanto corre atrás da tecnologia nuclear, a China se prepara para uma guerra iminente. Cava túneis e escava salões subterrâneos gigantescos para proteger a população numa emergência de ataques atômicos. Mas a economia se enfraquece com os gastos necessários para a defesa. E o governo de Pequim decide-se pela aproximação com o Ocidente. Menos ameaçador do que os russos.

Afinal, se conseguir algum tipo de parceria com os Estados Unidos, os soviéticos pensarão duas vezes antes de um ataque.

Mas como fazer para levantar a “cortina de bambu”, montada desde a tomada do poder pelas tropas de Mao-Tse-Tung? Anos de isolamento tornaram a grande China tão ameaçadora e misteriosa ao Ocidente quanto a União Soviética. Então os dirigentes chineses decidem-se por algumas ações pouco ortodoxas.

Uma delas: paparicar congressistas americanos com mimos, presentes. Para ganhar sua simpatia quando de uma futura discussão sobre a reaproximação EUA-China. Mas que tipo de mimos? Os homens de Pequim se lembram de como os ocidentais morrem de amores por vasos chineses. Principalmente os antigos, da dinastia Ming. E isso eles tem aos montes, nas suas fortalezas ocultas.

Mandam buscar os mais valiosos, fazem uma lista de políticos que irão receber os “mimos” e saem atrás de homens de confiança, neutros, que podem fazer a ponte entre o Ocidente e a China.

É uma operação de paz. Mas secreta e delicada como um projeto de guerra.

Um empresário japonês recebe, não sabemos de que forma, uma coleção de vasos para ajudar na reaproximação e a lista dos futuros prováveis “presenteáveis”. Tudo pronto.

Mas o projeto é atropelado pelo famoso jogo de ping-pong que se conseguiu montar em Pequim entre uma delegação americana e os campeões chineses. Iniciara-se o degelo.

E os “mimos” passaram a ser desnecessários.

Provavelmente devem ter ficado para os homens que haviam se arriscado num projeto de paz cercado de perigo.

Lembram-se daquele vaso que eu não aceitei?

Era um deles.


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