Crônica 272 - "O Milagre Possível"


Ontem, durante o lançamento do Programa Fome Zero encontrei o Ziraldo com várias cópias de uma crônica sua sobre a campanha. Discutimos idéias e conceitos e decidimos que seu texto poderia interessar ao público adulto do site da Turma da Mônica.

Outros órgãos de comunicação, a partir do Pasquim, estão divulgando o discurso inflamado do meu colega e eu participo dessa repercussão.


31/1/2003


O MILAGRE POSSÍVEL


Lula é de Escorpião. Obsessão é uma das características mais importantes deste signo zodiacal. É maravilhoso que sua obsessão seja acabar com a fome no Brasil. Chegou a hora de todo mundo dar palpite. Olha eu aqui!!!

Temos vários tipos de fome no país. As duas mais importantes que englobam todas as outras, as da carência vitamínica, as da inadequação climática dos alimentos, as do desperdício, etc. são a fome permanente e a fome emergencial.

Já sabemos que a produção agrícola do Brasil é suficiente para alimentar todos os brasileiros. A principal questão é como fazer este alimento chegar à boca dos que têm fome, sem pelo caminho virar alimento da corrupção edêmica dos atravessadores de todo o tipo: o brasileiro típico. Como fazer o alimento exato e necessário chegar ao seu destino é uma questão a que o aspite assessor de palpite aqui ainda não se dedicou. Mas, vocês não perdem por esperar.

A fome emergencial se resolve pelos métodos natalinos, não tenho nada a acrescentar. Neste momento, com relação à fome permanente, o meu palpite é bíblico!

Falei dele a Frei Beto, numa entrevista que ele deu para OPASQUIM21, e ele me olhou com os olhos brilhando. Não se chamasse Libânio Christo!!! É que eu quero multiplicar os pães e os peixes!!!

Preparem-se!

Sabem como se chama a fruta-pão na Venezuela? Pan de los pobres.

Ela, a fruta-pão, veio para a América no final do Século XVIII. Veio de Java, via Caiena peraí: o café, também, não passou por lá ao vir para o Brasil? - e se deu enormemente bem na Mata Atlântica, a ponto de parecer árvore nativa. Em 1819, Von Martius viu, no Rio de Janeiro, aléias de árvores de fruta-pão que lhe pareceram ter mais de vinte anos. Com apenas três anos ela já é adulta e já dá mais de cem frutos por árvore. Foi trazida para a América para alimentar os escravos lembram do Marlon Brando em “O Grande Motim”, com seu barco cheio de mudas de fruta-pão? é riquíssima em proteínas, glicídios e carboidratos e pode virar sopa, guisado de cocção mais rápida do que o feijão, portanto mais econômica farinha panificável, boa para bolos e biscoitos; pode ser usada em saladas e com ela fazem-se doces, compotas, frutas-seca, farinha granulada tipo sagu; frita-se para aperitivo, cose-se para virar pão de verdade e comer com manteiga, como meu pai comia, quando eu era criança (o negócio, diria o Zé Simão, é arranjar a manteiga). À sua pasta pode-se agregar qualquer sabor. Em suma: uma árvore de fruta-pão sozinha, plantada num quintal, pode alimentar uma família. É só uma questão de programação e informação. Tudo rimado assim!

Tem mais: ela não precisa de rega ou aragem do campo, seu cultivo não exige máquinas ou insumos, não se lhe conhecem pragas. Uma fruta-pão pronta para colher antes de estar madura no pé pesa dois quilos! Além disto, senhores, sua árvore pode ser inscrita como planta medicinal: casca, raiz e folhas curam cada uma à sua vez diarréia, corrimentos, feridas na pele e, last but not least mesmo! dela se pode extrair um poderoso vermífugo. E tem mais: sua madeira é boa para mourões, móveis, fabrico de barcos e para a construção civil, ainda que não tenha a tradição de ser usada para isto, no Brasil.

Não sou eu que estou a descobrir estas qualidades da fruta-pão. Ela, com todos estes produtos que mencionei, foi exibida em exposições internacionais no princípio do Século XX, tanto no Rio como Paris. Isto, depois de se ter transformado, ao longo do sécullo XIX, em um dos alimentos mais recorrentes das populações da Bahia e helás! de Pernambuco.

E esta árvore, com suas grandes folhas recortadas, de verde intenso, é linda! Não entendo porque nos esquecemos dela.

Muito bem. Feito o elogio do pão, façamos o elogio do peixe.

Não entendo porque se quer desmatar a Amazônia, a pátria da água, para se criar boi. Produzir racionalmente uma tonelada de carne de boi custa dezenas de vezes mais caro do que produzir o mesmo peso de carne de peixe. Com uma vantagem: se chover muito, se vier enchente, se o dilúvio vier, peixe não morre afogado. E nem pega aftosa.

Brasileiro pobre, no começo do século passado, de norte a sul do país, comia bacalhau. Mantas de bacalhau rodavam este país vi pilhas delas no armazém onde meu pai era guarda-livros e, como sempre nos desprezaram, se dizia que, para nós o povo, bacalhau bastava. Pois o belo amazonense José Veríssimo, em 1958, conta que, viajando pelo seu estado, via mantas e mantas de pirarucu sendo transportadas pelo rio para alimentar o povo do Amazonas. E dizia que a pesca e a salga do pirarucu eram a atividade econômica mais importante da Amazônia, no seu tempo. Gastão Cruls, trinta anos depois, confirmava o que Veríssimo dizia.

Pirarucu é o bacalhau brasileiro. Só que mede dois metros de comprimento e não precisa ser pescado a dez graus abaixo de zero em mar bravio. E pode virar ensopado, muqueca, tira-gosto o mais sensacional que já provei, cortado em cubinhos em peixe a belle-mauniere com alcaparra o negócio é arranjar a alcaparra peixe frito, bolinho, o que você quiser. Pra viajar, basta ao pirarucu virar bacalhau. Em mantas! Só que é mais macio e mais gostoso, ainda.

Além disto, e principalmente, o pirarucu pode ser criado em fazendas aquáticas, como já se faz na amazônia peruana ou colombiana, preciso verificar e, do ponto de vista protéico, é o alimento perfeito.

Portanto, meu caro Frei Beto, por favor, inclua aí, no programa que o José Graziano está dirigindo e do qual você faz parte, este palpite tão biblicamente viável.

O grande perigo, é que, se um programa de produção racional de fruta-pão com sua industrialização e formação ou renovação de hábito e o sub-programa intitulado: “Pra quem é, pirarucu basta!” derem certo, aí, mesmo, é que vão chamar o Lula de santo.

Corremos o risco, Frei Beto?

Ziraldo Alves Pinto





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