Crônica 284 - "Will Eisner, meu mestre!"

 


Hoje, acordei me sentindo diferente.

Pensando na vida mas sem conseguir olhar para o futuro.

Não conseguia rir, cantar, me encantar com o que está em volta de mim.

Estranhei meu estado de espírito. Eu não sou assim!

Vivo me orgulhando de ter apenas alguns poucos minutos de baixo-astral durante um ano todo...

Mas hoje a coisa pegou. Eu me arrastei pela manhã e pela tarde sem emoções, sem entusiasmos, sem planos, sem vontades.
E por mais que buscasse motivos, não me lembrava de nenhum que pudesse ter me baqueado assim.

Os problemas que me lembro ter, já os processei. E sinto que posso resolvê-los com decisões ou com suas eventuais alterações.
Então, o que estava me arrastando para um sentimento de solidão, de tristeza, de falta de perspectivas?

Nunca me senti assim, antes...

Tanto que nem sei como pedir socorro a um médico, a um amigo, a um especialista...

Sensação estranha e inesperada...

No fim da tarde, um repórter me liga e pergunta se eu sabia da morte do desenhista Will Eisner.

Foi um baque.

Meu ídolo, meu guru, meu amigo Eisner, que me ensinou tudo de histórias em quadrinhos, morreu.

E eu sabia disso ali, de chofre, quase sem poder pensar para responder às perguntas que o repórter insistia em fazer.

Depois de alguns instantes e respostas meio desconexas, o jornalista se desculpou pela notícia que me deu sem maiores cuidados com minha emoção e desligou.

Ele não tinha idéia do que Eisner representou e representa para mim.

Hoje, foi como se eu tivesse perdido outro pai.

Um pai amantíssimo, que espargiu mensagens lindas e carinhosas, emolduradas em desenhos maravilhosos... que eu captei desde criança.

Eu e milhares de leitores espalhados pelo mundo.

Eisner é considerado o maior autor de quadrinhos de todos os tempos.

Ninguém conseguiu chegar até onde ele chegou na arte e na mensagem. Não tem seguidores à sua altura no estilo e na percepção da alma humana.

Eu o descobri quando tinha meus 10 anos de idade, em páginas coloridas na revistinha "Gibi".

Já gostava de rabiscar, de desenhar. E já queria fazer minhas historinhas. Mas o que eu sentia, via, lia nas aventuras do "Espírito", seu "herói" mais popular dos quadrinhos, eu sabia que nunca iria conseguir fazer igual.

Não havia, nas aventuras do "Espírito", um roteiro igual ou parecido a outro. Tudo era original, inusitado, surpreendente, maravilhoso. Uma janela para o mundo da fantasia e da criatividade, sem paralelo nas histórias em quadrinhos. A começar pelo título, jamais repetido da mesma maneira. Cada vez que a palavra "The Spirit" titulava uma aventura, ela era como se fosse um novo logotipo alusivo ao "clima" que íamos encontrar na aventura, que sempre "durava" sete páginas.

O personagem "Espírito", criado na mesma época em que nasceram os mais famosos super-heróis dos quadrinhos, também era diferente na sua proposta de "herói": era humano, tinha fragilidades, apanhava um bocado dos bandidões grandalhões e, às vezes, se sentia atraído por voluptuosas vilãs.

Havia histórias em que Eisner sequer colocava o personagem principal. A não ser no último quadrinho, como referência de que aquilo era uma história do "Espírito".

Nunca nenhum autor teve coragem de tratar seu "herói" com tanto respeito por sua humanidade.

Mas a maneira como era publicada a historinha do "Espírito", em capítulos, no Gibi, me deixava angustiado. Queria ler de uma vez toda a história. E reler... E ler de novo, sentir o ritmo, o clima, buscar novos elementos nos cantinhos do desenho, novas técnicas de claro/escuro (Eisner foi mestre nisso, também).

Então comecei a "danificar" minha coleção de gibis: passei a separar (cortava com tesousa, cuidadosamente) as páginas em que o "Espírito" aparecia, juntava umas seis ou sete aventuras de sete páginas e as costurava, com linha e agulha, num álbum artesanal. Fazia uma capa de cartolina para proteção e tinha, assim, uma revista só com histórias de Will Eisner, uns 20 anos antes que suas publicações começassem a ser editadas em belos álbuns de luxo. Principalmente, na Europa.

Hoje, quando chegar em casa, vou buscar na gaveta de guardados preciosos os velhos álbuns com as historinhas que costurei quando era rapazinho.

Sobraram algumas. Em bom estado.

Vou acariciar o papel, a cartolina verde que serve de capa, ler os títulos das aventuras
(eu "batizava" as histórias) e lembrar do meu mestre Will Eisner. Dos nossos encontros no Brasil, no nosso estúdio, em Miami, na sua casa, em outros momentos bons, quando convivemos com artistas, colegas, em festivais, mostras, reuniões...

E talvez derramar algumas lágrimas.

Era o que faltava para entender minha prostração durante todo o dia.

Tinha perdido um pai e não sabia.



04 .01.2005




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