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(entrevista para PUC – Rio de Janeiro)
1) Como surgiu o personagem Dona Morte da Turma do Penadinho?
Numa galeria de personagens macabros, teria que haver a personificação
da morte. Nas histórias do Penadinho veio como Dona Morte. O
que denota respeito por parte de todos os outros personagens.
2) Este personagem transmite o que o senhor pensa sobre a morte
ou aquilo que gostaria que os leitores pensassem sobre ela?
A série do Penadinho (nome que vem de alma penada), foi criada
para desmistificar os medos e pavores que cercaram a nossa infância,
ou ainda cercam a infância de milhares de crianças em vastas
áreas deste país.
Sou do tempo em que minha avó nos passava a certeza da existência
dos sacis, almas penadas e lobisomens em verossímeis histórias.
Ainda me lembro dos arrepios, do eriçar dos cabelos da nuca,
do medo de ficar sozinho, medo da escuridão que sentia após
ouvir essas histórias. Até que a coisa foi ficando pra
trás, meio como lembranças de infância, e os medos
mudaram de nome e de cara, na vida adulta.
Mas a memória dessas histórias contadas na infância
e dos personagens que as viveram ficou.
Daí resolvi criar a Turma do Penadinho. Com o acréscimo
de algumas figuras que não constavam nas velhas histórias.
Como o Muminho, o Frankstein (Frank) e um ou outro alienígena.
Quanto ao personagem Dona Morte sugerir o que sinto a respeito do nosso
final de vida...
Até que eu gostaria de pensar numa morte que chega com um papo,
uma explicaçãozinha, uma marquinha no caderno dizendo
que chegou a nossa hora. Seria mais "humano" do que acontece
na real. Principalmente se soubéssemos que há vida depois
da morte: no cemitério do Penadinho — uma espécie
de limbo, área de espera — ou em outro sítio mais
pra cima ou pra baixo (este último não desejado, lógico).
Os leitores, por outro lado, devem encarar, cada um à sua maneira,
nossas "brincadeiras" com a coisa séria que é
a morte. É um tema, um assunto, que cada um trata ao seu jeito.
A nossa proposta é que a morte... ou a Dona Morte, não
seja levada tão a sério... enquanto não nos encontramos
com ela.
3) Se comparada com outras personagens, como a de Neil Gaiman,
a morte da Turma do Penadinho não é assustadora. Como
foram definidos os aspectos visuais e morais da personagem? Por que
esta escolha foi feita desta maneira?
Os aspectos visuais são os clássicos de inúmeras
histórias, de contos, de filmes: uma figura sombria, escondida
sob vestes compridas, capuz que quase esconde o rosto e uma foice de
ceifar vidas.
No nosso caso, joguei o rosto mais pra fora do capuz e botei ali uma
caveira. O que convém ao personagem.
Quanto aos aspectos morais, Dona Morte está à vontade
na sua missão. Faz o que gosta e o que pode para cumprir sua
"cota" e evitar a superpopulação.
Mas tenho evitado transformá-la, nas histórias, numa figura
assassina. Agressiva.
Um toque do alto do cabo de sua foice já transforma o "escolhido"
em fantasma.
Temos evitado, também, roteiros com menções a catástrofes
ou desastres que tenham acontecido realmente e que ainda estejam marcando
desagradavelmente a lembrança dos leitores.
Aqui ou ali temos "humanizado" o personagem com momentos de
vaidade e preocupação com o vestuário.
4) Como estas diferenças conceituais da representação
da morte nas diferentes histórias em quadrinhos dialogam com
o leitor?
O leitor joga com nossas histórias, com nossos personagens, de
maneira leve, bem-humorada, como sempre foi nossa proposta.
Outras produções, de outros autores, eventualmente indicam
outros caminhos, mais sérios, místicos, apavorantes...
Prefiro o caminho do bom-humor.
Mas o leitor é que vai escolher onde fica para observar e pensar
no assunto.

09.11.2004
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