
Ontem foi um dia triste. Meu amigo Octavio Frias de Oliveira foi embora. Mas
deixou uma partezinha da sua história para eu contar. E não é inventada,
como nos quadrinhos.
Aconteceu mesmo, meio como um conto de fadas.
Começou quando resolvi sair de Mogi das Cruzes para montar um estúdio em São
Paulo, no começo dos anos 60. As tiras do Bidu e do Cebolinha já eram publicadas na Folha, mas era
muito difícil enviar quase todo dia os desenhos originais para a redação. Eu
ainda não tinha equipe e desenhava aos poucos. Terminava e mandava. Era um
trabalhão.
Fora o transporte sofrível entre Mogi e São Paulo, tanto de ônibus quanto de
trens. Naturalmente, carro ainda era um sonho distante. Por isso, a mudança
de endereço era super-necessária. Encontrei um bom apartamento para alugar
na Alameda Glete, praticamente ao lado da Folha. Uma maravilha de local. Era
desenhar e chegar à redação, a pé, em poucos minutos.
Mas aí surgiu um problema inesperado: a imobiliária me pediu um fiador. Eu
não tinha amigos proprietários em São Paulo. Estava para perder o imóvel
quando resolvi falar com os diretores-proprietários da Folha: Frias e
Caldeira (Carlos Caldeira Filho), que era como os chamávamos à distância.
Ouviram-me atenciosamente, comentaram sobre os meus quadrinhos, de como os
leitores estavam aceitando bem a turminha que nascia e resolveram me
ajudar.
Frias pediu que Caldeira ligasse para um publicitário, dono da agência
Norton, e solicitasse a fiança, já que os estatutos da Folha os impediam de
fazê-lo.
E lá fui eu com um bilhete do Caldeira e o contrato de locação nas mãos
procurar pelo publicitário Geraldo Alonzo, que me atendeu pronta e
gentilmente.
Eu estava, finalmente, com os pés num bom local para instalar estúdio e
moradia. E ali comecei a formar minha equipe de auxiliares. Um dos quais
trabalha comigo até hoje, o Sergio Tibúrcio Graciano. Os tempos correram, a
turminha foi aumentando, vieram a Mônica, Piteco, Jotalhão, Horácio... e a
equipe também foi aumentando. As dimensões do apartamento/estúdio já não
bastavam.
Foi quando percebi um pequeno prédio recém-terminado, ao lado da Folha,
abrindo-se para a venda de salas e andares. Procurei o corretor e ousei
propor a compra de quatro salas - que é até onde eu podia ir. Assinei os
papéis de compromisso de compra e fui almoçar.
Logo depois do almoço, o corretor que havia me atendido me procurou,
esbaforido, para eu desistir do negócio. A diretoria da Folha resolvera
comprar todo o edifício. E meu compromisso de compra poderia atrapalhar o
negócio. Fiquei contrariado. Iria perder o local ideal para trabalhar com o
jornal?
Não me conformei e fui falar com o Frias. Ele me atendeu muito gentilmente,
como sempre (não sem antes eu passar por um longo e usual "chá de cadeira"
proporcionado pela sua fiel secretária). Expliquei a situação e ele me
propôs, então, uma solução que poderia resolver o impasse: eu desistiria da
compra e ele me cederia meio andar do prédio (o dobro do que eu estava
tentando comprar) durante o tempo que precisasse, sem cobrar aluguel, luz,
água, telefone, para me ajudar no início de carreira. E também porque não
precisava de todas as dependências do prédio.
Saí maravilhado. Era coisa de pai para filho. E assim foi. Durante muitos
anos.
Graças a essa gentileza pessoal e econômica do velho Frias, sempre em
concordância com o sócio Caldeira, pude apressar a montagem da equipe,
desenvolver a redistribuição de material para outros jornais, criar a
Folhinha de S.Paulo, produzir e distribuir suplementos coloridos (o
Jornalzinho da Mônica) que eu enviava já impressos para todo o Brasil. Até
chegar a quase 300 jornais com nossas historinhas.

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Só faltava revista de banca.
Até mesmo nesse segmento quase fui atendido pela Folha. Planejaram o
lançamento de revistas em quadrinhos com nossos personagens, que seriam
rodadas na mesmas impressora do jornal. Chegaram a imprimir alguns
exemplares, inclusive.
Mas essa experiência não foi adiante... na Folha.
Aconteceu logo depois, mas na Editora Abril, que lançou a revista Mônica em
1970.
E nossa história com a Folha foi se desenvolvendo mais alguns anos até
ocuparmos dois andares do pequeno prédio. A demanda crescia. E eu já pagava
alguns dos custos da nossa ocupação. Agora eu podia.
Então, mudou a direção do jornal. O filho substituiu o pai. E chegou o dia
em que me pediram para desocupar a área. A Folha também crescera. Agora,
precisava do prédio todo. Terminara nossa longa e proveitosa ligação com o
grande jornal. Inesquecível e vital nos primeiros anos do nosso
estúdio.
O velho Frias tinha feito sua parte. Entrou para a história da Turma da
Mônica como um benemérito.

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É nosso padrinho. Com orgulho e honra.

30 de abril de 2007
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