Crônica 50 - "O Espírito de Eisner"


Como contei em crônica anterior, aprendi a ler "decifrando" uma antiga história em quadrinhos do Mandrake, com o auxílio da minha mãe.

Daí ninguém mais me segurou. Queria ler tudo o que me caísse nas mãos.

E foi nessa época de fantásticas descobertas de textos e formas nos quadrinhos que encontrei "O Espírito". Um herói mascarado de histórias policiais, criado pelo genial Will Eisner, desenhista norte-americano.

Tiras e páginas coloridas de "O Espírito" saíam publicadas no Globo Juvenil e no Gibi. E desta última publicação eu recortava todas as aventuras coloridas, juntava-as, recortava cartolinas à moda de capas e costurava todas as folhas, num dos lados, para armar um álbum particular — costurava mesmo, com agulha e linha, já que não tinha grampeador — depois marcava na capa os títulos selecionados ali e pronto. Tinha um primeiro gibi só de "O Espírito", trinta anos antes de se lembrarem de editar um. Ainda os tenho, guardados.

Eisner desenhou "O Espírito" durante toda a década de 40. Parou em 52 para se dedicar a outras atividades, principalmente editoriais.

Mas à medida que o tempo passava, estudiosos e pesquisadores de quadrinhos começaram a "redescobrir" sua obra. Até que, a partir de grandes festivais europeus, Eisner foi elevado às alturas como o grande revolucionário de formas e textos.

Para muitos, Eisner é o Orson Welles dos quadrinhos, com sua narrativa intrigante, seus roteiros supercriativos, pelos personagens vivos, humanos com virtudes e defeitos explícitos e pelo desenho, perfeito nos "layouts" e no domínio do claro-escuro.

Quando estava em curso a "redescoberta" de Eisner, eu o visitei em sua casa perto de Nova York, pelos anos 70. Comigo, uma turma de colegas do meu estúdio, numa viagem planejada para conhecermos nossos colegas americanos.

Eisner ainda estranhava tanto interesse por uma obra que ele interrompera havia muitos anos. Mas esse interesse e a movimentação que se fazia cada vez maior em torno de Eisner, resultou no melhor dos frutos: ele voltou a criar, a desenhar, com maior vigor e maturidade. E vieram livros de quadrinhos que são antológicos, como o último, lançado no Brasil, intitulado: "No coração da tempestade", da editora Abril. Fora um brilhante álbum onde ele dá aulas de como se fazer quadrinhos (que ele chama de "arte seqüencial").

Agora Eisner mora na Flórida, perto de Tamarac, dedicando-se a novos livros e auxiliando Mort Walker (Recruta Zero) nas atividades do lindo museu dos quadrinhos que se instalou em Boca Raton, ao norte de Miami.

Estive recentemente com eles, visitei o Museu (que será motivo de crônica futura) e me maravilhei com o vigor e a inteligência do meu ídolo de infância. Dali a dias ele completaria oitenta anos.

Não pude deixar de agradecer, mais uma vez, pelo que Eisner me havia passado quando eu tinha cabeça de mata-borrão (absorvia tudo): todo um estilo de narrativa que influenciou e influencia até hoje as histórias em quadrinhos assinadas por mim.



Obrigado, Eisner.


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