| Crônica 89 -
"O temático e a civilização"
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Desde a aurora dos tempos tudo é temático, neste planeta, e não nos damos conta. Mesmo antes do início dos tempos, se você for buscar em alfarrábios, papiros, pedras e tijolos, a história é contada através de temas, de momentos mágicos vividos num envolvimento de arte, engenharia e realização que explicam o "clima" e o fato. Tente mentalizar o Éden, o paraíso perdido de Adão e Eva. Não era um "parque temático"? Com aquela coisa toda de animais convivendo em harmonia, alimento à vontade, um casal perfeito e lá num canto sombrio, a tenebrosa macieira dos frutos proibidos, onde se enroscava a serpente - demônio do pecado. O que estão esperando para inaugurar um parque temático assim? Talvez ainda tenham dúvida sobre como representar Deus. Com tantas interpretações em cada documento antigo ou novo. Mas através dos tempos os cenários temáticos se sucederam: as grandes florestas com dinossauros, as cavernas dos trogloditas, a Atenas que brilhou com cultura e arte, o Egito antigo com suas pirâmides e faraós, as cidades por onde Cristo andou e deixou sua mensagem, Roma com seus imperadores e suas conquistas, a idade média, de castelos, reis e cavaleiros andantes, as cidades resplandecentes do Renascimento, as descobertas marítimas que dobraram o tamanho do mundo dito civilizado, o barroco, a idade das máquinas, a "belle epoque", a tecnologia se espraiando por todas as vertentes neste século, provocando conquistas científicas numa velocidade impossível de ser abarcada pelo homem comum... fora o futuro, adivinhado, intuído e já logo aí, depois do momento mágico da passagem do século. E ao mesmo tempo em que o progresso galopa em termos tecnológicos, proporcionando uma sobra de tempo para o homem usar em lazer, resta um problema: o que fazer nesses momentos de lazer? A tendência é o homem cuidar melhor e com mais tempo do próprio corpo, da saúde e ir em busca das emoções de viagens, conhecimentos novos e fantasias. As áreas de diversão tematizada servem para tudo isso. Desafiam o corpo em forma de parques aquáticos ou secos com esportes ou jogos, aliviam tensões do dia-a-dia, provocam emoções e fabricam adrenalina. A fantasia vem com ambientes que retratam os mitos e as lendas conhecidas, temidas ou queridas. Depende da vontade do freguês: um trem fantasma super-realista, com arranjos virtuais para quem quer se assustar ou ambientes doces e infantis para crianças e famílias que buscam essa calma. E haja histórias reais ou da carochinha, heróis ou personagens de cinema ou histórias em quadrinhos (como a turma da Mônica). Para movimentar uma indústria de milhões de dólares, geradora de empregos e sonhos. A indústria do temático não pára. Agora mesmo constrói-se na Inglaterra uma cópia exata do Titanic, clone perfeito, que vai singrar o mar do Norte, em 2002, na mesma rota onde 90 anos atrás aconteceu a tragédia do naufrágio do número um. Dizem que esse é, realmente, "inafundável", com radar sofisticado e salva-vidas para todo mundo. É viver para ver... e embarcar nele. E no futuro, naturalmente, haverá parques temáticos sobre os primeiros parques temáticos da história. Retratando nossas eventuais e atuais limitações técnicas ou tecnológicas. A garotada superavançada vai se divertir, brincando como nós brincamos hoje. Mas com um gostinho de nostalgia, provavelmente. Afinal, nós ainda colocamos muito de arte, ternura e poesia nos planos dos parques temáticos. Será que os futuros empreendedores terão sensibilidade para suportar o lado humano que nós ainda teimamos em acoplar aos nossos planos? Espero que sim... pelo bem dos meus bisnetos. |
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