Crônica 9 - "Sem dinheiro... no hotel mais caro do mundo"


Era tempo de festival de História em Quadrinhos em Lucca, na Itália. O mais importante do mundo e que reunia, a cada ano, os mais importantes desenhistas de cada país. O ano: 1971.

Para mim um festival memorável: voltei para o Brasil com dois prêmios: o gran Guinigi e o Yellow Kid (este último considerado o Oscar das HQ).

E lá estávamos nós, os desenhistas, reunidos para palestras, convenções, premiações e principalmente (naquela região da Toscana) para almoços e jantares monumentais, regados a vinho generoso. Mas a coisa não terminava aí. A Europa nos convidava para esticadas aos países mais próximos após a mostra. E eu aceitei a sugestão do meu colega Hugo Pratt (Corto Maltese) para visitá-lo em Veneza, onde ele tinha uma de suas casas.

Antes, como o clima do Festival estava uma beleza, antevia a premiação e tinha um tempinho para essa fugidinha para Veneza, liguei para o Brasil e convidei minha então esposa Vera Lucia, para "voar" para Lucca, a fim de ainda pegar o Festival pelo meio e depois irmos, juntos, para Veneza numa lua de mel tardia. Vera conseguiu chegar rapidinho, participou das festividades de premiação e arrumamos as malas para a esticada veneziana.

Só havia um problema naquele tempo: eu tinha o dinheiro contado para os poucos dias que vinham pela frente. Não podiamos nem pensar em errar na escolha de um mero restaurante. Tínhamos que economizar, mesmo!

Mas o outono era uma festa, o clima de lua de mel também.

Dinheiro era o menos importante... desde que tomássemos cuidado.

Chegamos a Veneza, por trem. Hugo nos esperava, com aquele seu corpanzil, sorriso simpático e jeitão todo diferente de falar.

Misturando italiano com português e espanhol para que Vera o compreendesse. Chamou uma lancha-táxi e disse que tinha reservado para nós um hotelzinho simpático e barato. Eu já havia lhe contado, em Lucca, do nosso problema de caixa. Ele nos acalmou, enquanto singrávamos pelos canais, abobados pelo espetáculo. Hugo dizia, enquanto admirávamos a cidade, que Veneza fôra feita para lua de mel. E a lancha embicou numa viela-canal ao lado de velhos prédios, próximo da Piazza San Marco.

Uma portinha quase despercebida surgiu rente à água, num paredão lateral de uma velhíssima construção. Hugo disse que era ali. Fez-nos descer da lancha num pequeno embarcadouro e nos encaminhou à entrada. Antes que pudéssemos falar mais coisas subiu na lancha e sumiu.

Tomamos o corredorzinho meio escuro e fomos em busca da recepção. A julgar pelo corredor velho e escuro, já estava até imaginando que o Hugo Pratt nos indicara um hotel inferior ao que eu pedira.

Mas a dúvida se desvaneceu quando deparamos com um enorme salão renascentista, coalhado de quadros e tapetes maravilhosos. A decoração era, no gênero, o que eu vira de mais sofisticado e magnificente. Era de cair o queixo. Vera e eu achamos que o Hugo se enganara ou estávamos no meio de um museu no caminho do tal hotelzinho. Mas tudo era muito estranho. Até encontrarmos, atrás de uma coluna, a recepção. Onde nos informaram da reserva feita em meu nome. Preenchemos as fichas e subimos para uma suite de cobertura que dava para o grande canal. Uma beleza de vista. Linda. E provavelmente muito cara. Vera estava encantada. E preocupada, como eu.

Como é que íamos pagar tudo aquilo?

Telefonei para o Hugo. E ele, às gargalhadas, disse que tinha planejado tudo aquilo, sim, porque achava que uma lua de mel merecia o melhor e mais caro hotel do mundo: o Danieli Excelsior.

E que eu economizasse no resto da viagem. Mas não nos três dias de Veneza.

Aceitei o argumento. Já que estávamos ali, o melhor era aproveitarmos.

O que fizemos.

Nos dias restantes, na volta via Paris tivemos que experimentar almoços e jantares de sanduíches e vinhos mais baratos. Mas sabe que também foi delicioso? Pudera: pão e salame franceses e mais vinho Boujolais, que era mais barato que água. O que mais queríamos para terminar a lua de mel temporã?

Mas todas essas aventuras tiveram um significado especial dentre as minhas lembranças de vida: uma semana depois de nossa chegada ao Brasil, Vera morreu num acidente de carro.

Clique aqui para ver esta página em Inglês.


logo Copyright ©1996 Mauricio de Sousa Produções
Todos os direitos reservados.
Restrições Legais e Termos de Uso do Site
E-mail

Webmaster: NMD internet & multimidia